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Neurodiversidade e o Mercado Cultural: Os Desafios Invisíveis para Artistas Autistas em Editais e Festivais

Foto do escritor: Marcinho Thuler
Marcinho Thuler
17 de set.
2 min de leitura

homem autista toca guitarra elétrica sentado na cama em quarto iluminado, com amplificador no chão e clima tranquilo.

Quando você finalmente carrega todo esse peso mental e físico até a porta da casa de show ou até a etapa final de um edital de fomento, o mercado cobra a conta. E a moeda de troca, na grande maioria das vezes, não é o domínio técnico sobre o instrumento ou a densidade da sua pesquisa musical. O mercado cobra rede de contatos.

O ecossistema cultural foi desenhado para quem faz rede de contatos. Ele exige conversa fácil, sorriso de compromisso e presença física garantida em todos os eventos e bastidores que importam para quem decide quem liga o amplificador. É aqui que artistas autistas são brutalmente silenciados. A nossa falha acontece exatamente onde o jogo corporativo é mais cruel: não na palhetada, não na harmonia, mas na mesa de negociação e na exaustão do networking obrigatório.

Historicamente, o setor cultural se orgulha de ser um espaço de vanguarda e inclusão. No entanto, quando analisamos os critérios subjetivos de curadorias e festivais, percebemos que a régua de contratação privilegia a neurotipia e a extroversão. Se você não consegue sustentar o personagem social esperado nos bastidores, o seu trabalho no palco raramente tem a chance de ser ouvido.


A Conveniência da Exclusão Estrutural

Essa barreira atitudinal se estende para a infraestrutura física e logística, revelando uma exclusão sumária de pessoas com deficiência (PcD) dos palcos. Nos editais modernos, a palavra "acessibilidade" virou um mero formulário burocrático para o público, mas quase nunca para o artista.

Na prática, o músico com deficiência é deixado de fora porque as instituições e casas de show tratam a inclusão como um fardo operacional. Ninguém quer alterar o orçamento para construir uma rampa de acesso ao palco ou prever a contratação de um acompanhante assistivo essencial para auxiliar a mobilidade e a regulação do artista.

A justificativa velada é sempre financeira, mas a raiz do problema é outra: não é por falta de dinheiro, é por conveniência. É administrativamente mais fácil aprovar o projeto de um artista que não exige adaptações do que repensar a infraestrutura de um festival. O capacitismo no mercado musical brasileiro é silencioso, mas cirúrgico.

Para que os editais de cultura (como SESC Pulsar, Lei Rouanet e fundos estaduais) sejam genuinamente democráticos, os curadores e gestores precisam entender que a falta de acesso não é apenas um degrau de concreto. Ela é a régua social invisível que mede, filtra e decide quem tem o direito de entrar no circuito, muito antes de o primeiro acorde soar. Repensar essas métricas não é um favor ao artista divergente; é o mínimo para garantir que a arte contemporânea não seja apenas um reflexo das relações públicas, mas sim da verdadeira capacidade criativa.

 
 
 

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